terça-feira, 20 de outubro de 2009

COMO TODO SANTO DIA

A aula deveria começar em instantes. Tínhamos ouvido o sinal havia poucos minutos, mas bem antes disso eu já estava no meu lugar, o livro de Português em cima da carteira.

Denílson, Caio e Fred faziam questão de marcar presença na entrada da sala. Falavam alto, riam escandalosamente, uma baderna. Impossível passarem despercebidos aos olhos de qualquer um de nós e acredito que nem fosse mesmo a intenção.

Esses eram os meninos que atormentavam o Léo. Muita gente sabia, mas a grande maioria ignorava.

Dali em diante, porta adentro, o óbvio.

Denilson e Caio na frente, Fred um pouco mais atrás, os três passando pelo estreito corredor onde ficava a carteira do Léo. Tão logo chegavam perto, a simulação de um tropeço, um esbarrão, ou algo semelhante como se tudo não passasse de inocente brincadeira.

- Opa! – e o súbito arremesso dos objetos ao chão.

Era um opa cínico, dissimulado, muitos alunos riam abertamente sem motivo para disfarces.

- Desculpa aí, Leitão.

Um desculpa aí debochado, quase nojento de ouvir.

- Pede desculpa não, Denílson! Não vê que a carteira dele é que tá torta, na passagem? Arruma isso aí, Gordo! – e Caio ria, um prazer desmesurável.

Léo procurava juntar tudo o mais rápido possível e então livrar-se da vergonha de se ver ajoelhado à caça de seus pertences. Porém, tanto esforço parecia não lhe valer para coisa alguma, pois quanto mais se apressava buscando uma agilidade que não tinha, mais atrapalhado ia ficando e os objetos escorregando das mãos feito sabonete.

Fred, por último, arrematava com chutes, inventava um sem querer, fingia um não vi, e lá iam canetas, lápis, borracha ou a própria mão do Léo na sua mira perversa.

Agora os três amigos partiam para as próprias carteiras, acomodando-se em meio ao riso, ao deboche e à malandragem, companhias indissociáveis deles.

Aos poucos, os alunos iam se dispersando, o assunto era substituído, Léo perdia a graça e deixava de ser o foco das atenções. Quando fosse ver, ninguém mais se lembrava do episódio. Tudo morto, enterrado e esquecido.

- Bom dia! – era a professora Luciana entrando na sala.

Léo já recolhera todas as suas coisas, mas o embaraço e o nervosismo de minutos atrás ainda lhe marcavam o rosto sem dó. Vermelho. Eu vi. Alguém mais deve ter visto, mas ninguém falou nada. Nem eu.

- Vocês se recordam de onde paramos? Fizeram em casa os exercícios da página 32? Vamos lá, pessoal. Se alguém deixou de fazer vai ficar complicado porque eu disse que a matéria de hoje…

Léo continuava vermelho. A pele muito clara corava com facilidade e seus cabelos loiros, bem curtinhos, realçavam ainda mais o rosto redondo.

Mantinha-se cabisbaixo, olhos rasantes sobre o livro, buscando, de maneira rápida e desajeitada, a página indicada. Estava sério, a expressão de quem controla um vulcão dentro do peito. Acho que era isso. Um vulcão.

Página 32. Qual a importância do conteúdo da página 32? Quantas páginas seriam necessárias para descrever o tormento do Léo? E o meu?

Eu via o que faziam com o Léo, via, sim, e não concordava. Mas era impossível defendê-lo.

Eu não conseguia defender nem a mim mesma.

(1º capítulo do livro Perseguição, Ed. Saraiva.)

7 comentários:

  1. OLá! Fiquei sabendo que estarás na LIVRARIA VANGUARDA na próxima semana! Que legal! Quando chegares nos conheceremos, pois trabalho nessa Livraria.

    www.rodycaceres.blogspot.com

    Abraços.

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  2. Com esse capítulo percebemos a importância desse livro. Todo professor precisa lê-lo, pois muitas vezes acontece isso em nossa sala de aula, assim devemos estar preparadas para uma intervenção.

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  3. Exelente seu livro.
    Em minha escola esse livro é trabalhado e foi muito importante para a minha vida, este livro.
    Parabéns!!!

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  4. Tânia, tudo bem? Trabalhei neste bimestre com o livro "Perseguição" nas sétimas séries e eles adoraram a leitura. O tema presente ainda está rendendo muita discussão e Campanha na escola!

    Abraço,

    Fátima.

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  5. Que bom que gostaram, Fátima! Dê um beijão neles por mim!

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